Posts Tagged ‘palestina’

h1

Cisjordânia: Hebron

março 24, 2010

A maior parte do que deveria ser o estado Palestino está sob ocupação de Israel desde que o controle sobre a área foi tomado da Jordânia na guerra de 1967. Mas as cidades e vilas da região são distintamente palestinas e oferecem memórias inesquecíveis a quem ousar se aventurar na região.

Muito se ouve a respeito do que acontece aqui, e embora hoje em dia o acesso a informação é maior, o cidadão comum no oeste nunca chega a saber o que de fato acontece no dia-a-dia do palestino na Cisjordânia. Mesmo para o turista é complicado visitar a área, ainda que em tempos de relativa “paz” e com um passaporte estrangeiro. Há vários “checkpoints” durante o caminho e, muitas vezes, pode se levar horas para passar por eles, e ainda que o viajante sinta-se frustrado por esperar, ao prestar atenção no tipo de tratamento dispensado ao palestino, o estrangeiro sente-se um privilegiado.

Hebron fica ao sul de Belém e é o centro comercial da Palestina. Por entre os mercados da cidade e ruas comerciais a atmosfera é vibrante e o carisma dos vendedores incomparável. Alguns são tão flexíveis com o horário de atendimento que abrem suas lojas para que o cliente possa comprar, ou cozinham determinado prato de sua preferência, uma vez que disponham dos meios, só para atender a vontade do consumidor. Entre as atrações históricas e turísticas da cidade estão os túmulos de Abraão, Isaac e Jacó, além da mesquita de Ibrahimi.

Entretanto,  é ao visitar essa área que nota-se os problemas da cidade. Há pequenos enclaves de assentamentos judeus no meio da cidade e essas áreas são acessíveis somente para os judeus. Os tipos de situações que se vê são absurdas. Uma boa maneira de visitar Hebron é as segundas com a agência “Alternative Tours”. O guia é um palestino nascido em Jerusalém e o passeio tem caráter político também.


O horror

Acredito ser necessário dispensar muitas palavras a isso, porém vou tentar ser breve. Minha experiência na Cisjordânia foi horrível, do ponto de vista humanitário. As situações que presenciei numa visita ordinária a cidade de Hebron foram perturbadoras. O que o governo israelense está fazendo é claramente uma limpeza étnica e, sem qualquer exagero, pode ser comparado ao que nazistas fizeram com judeus. Sob o pretexto de “segurança” Israel tem construído uma muralha da maneira que lhe convém, e bem longe do que seriam as fronteiras estabelecidas entre Palestina e Israel. As muralhas transformam as cidades palestina em guetos, com apenas uma entrada/saída, fortemente controlada.

O abuso e humilhação diário da população é algo que ajuda a explicar o comportamento violento de muitos deles, e a posterior acusação de terrorismo. A falta de perspectiva de jovens palestinos certamente faz com que eles se rendam a formas mais violentas de protesto, já que com tantas décadas de ocupação nada realmente mudou. O exército frequentemente prende crianças e, obviamente, adultos sem qualquer acusação – apenas, novamente, por medida de segurança. A violência que a população sofre por conta dos colonos judeus na área é difícil de se colocar em palavras e algo absolutamente chocante.

Eu poderia citar diversos exemplos, mas um que ilustra bem foi o caso do professor judeu Baruch Goldstein que durante o Ramadan em 1994 invadiu a principal mesquita da cidade e disparou contra os palestinos enquanto estes rezavam – e a mesquita sempre foi “protegida” pelo exército de Israel, o que levanta perguntas sobre como o sujeito adentrou com um fuzil. Dezenas morreram pelas mãos deste sujeito e outros tantos mais quando o exército disparou contra a população para tentar conter a agitação. O criminoso foi morto ao tentar sair da mesquita e somente ano passado as investigações para identificar o palestino que o matou foi finalizado (inconclusivo). Próximo a um dos assentamentos na região há um memorial a este professor (Baruch Goldstein) e ele é celebrado como um herói pelos colonos locais.

Visitar a Cisjordânia abriu uma ferida em mim, me deixou completamente fragilizado e ainda custo a conter minhas lágrimas ao lembrar das coisas que vi e das histórias que ouvi.

Cisjordânia

Alternative Tours

No nível do solo um mercado palestino, acima apartamentos de colonos judeus. Nota-se os objetos jogados pelos colonos, entre eles cadeiras, tijolos e garrafas de bebida.

.

.

.


O exército patrulhando o mercado palestino. Frequentemente os vendedores sofrem abusos e humilhações.

.

.

.


Palestino refletindo na Mesquita de Ibrahimi, local do massacre de 1994.

Anúncios
h1

Próxima Parada – Oriente Médio (1/3)

fevereiro 3, 2010

Israel/Palestina

Viajar por Israel e Palestina tem dois lados distintos. Israel é moderna e ocidentalizada, conta com transporte público de qualidade, infraestrutura e tem inglês praticamente como terceira língua. É um país pequeno, reduzindo assim o tempo na estrada entre um lugar e outro além dos preços do transporte, entretanto, de forma geral os preços tendem a ser altos e comparados com a maioria dos países do Ocidente. Pouca coisa precisa ser planejada no sentido de vistos, passeios e acomodação e é um desses lugares que você pode simplesmente decidir na última hora que vai passar alguns dias e voar para lá.

A Palestina, no entanto, é outra história. Infraestrutura está abaixo dos padrões mínimos e depender unicamente do inglês pode ser um desafio. Enquanto Gaza é inacessível para turistas, qualquer um pode visitar o “West Bank”. Passeios para o West Bank são uma excelente idéia, e recomendados mesmo para os que preferem fazer as coisas por conta própria, pois a maioria dos passeios organizados envolvem muita informação sobre a situação local e também segurança.
Bom, mesmo considerando isso e um pouco mais, amigos e família ficaram perplexos ao saberem desse meu próximo destino, dada a reputação de guerras e terrorismo na região. Vale lembrar que mais pessoas morrem em acidentes de trânsito quando vão para o litoral ou interior do que em ataques terroristas em Israel e na Palestina.

O roteiro
Saindo de Londres, a primeira parada é Tel-Aviv. A cidade que nunca para e não conhece finais de semana, porque todo dia é “final de semana”. Conhecida por sua população laica, extremo oposto de Jerusalém, e suas intermináveis noitadas em casas noturnas e bares, Tel-Aviv é uma cidade moderna que poderia estar localizada em qualquer parte da Europa.

Após alguns dias e festas em Tel-Aviv, sigo rumo a Jerusalém, a cidade da qual pessoas vem escrevendo a respeito nos últimos 3.000 anos. Mais do que bela, Jerusalém é um centro espiritual, e local sagrado para judeus, cristãos e islâmicos. Mesmo não sendo religioso, o fato de que três das maiores religiões do planeta reservam tanta importância a uma simples cidade faz da visita a Jerusalém algo especial e deve ser difícil não ceder a certo apelo emocional ao cruzar as antigas ruas e alamedas da cidade velha. A partir de Jerusalém faz-se obrigatória a visita ao Mar Morto e ao forte de Massada.

Depois de vários dias em Jerusalém, contando o Shabbat, é hora de ir para a Palestina. Uma breve visita a Ramallah e sigo para Belém, Herodian e o maior campo de refugiados da região. É hora de ver a realidade dos palestinos, a muralha que divide os dois povos e conversar com os locais. Essa é uma parte que considero muito importante, e certamente pode mudar muitas idéias pré-concebidas a respeito do que acontece por lá.

Volto a Jerusalém e de lá sigo para Haifa, com paradas em Caesarea e Megiddo, a primeira são as ruínas de uma importantíssima cidade no passado (comparada a Alexandria nos tempos de glória) e o segundo é onde, de acordo com a lenda, o Apocalipse vai começar. Haifa, por outro lado, é um exemplo de coexistência pacífica entre árabes e judeus e repleta de história. A cidade data do século III e foi construída nas encostas do Monte Carmelo além de ser casa do Centro Mundial Bahá´i, um patrimônio mundial da UNESCO. Após a breve visita a Haifa é hora de cair na estrada e ir para Acó (Akko ou Acre), cidade medieval dos cruzados que se encontra perfeitamente preservada. Dizem que as coisas não mudaram muito desde a época dos cruzados e Marco Polo, e tem se um sentido real de cidade medieval ao andar por suas ruas estreitas, especialmente ao anoitecer.

Finalmente, após uma noite em Acó é hora de fazer as malas e partir rumo a Jordânia, porém não sem antes parar por algumas horas e um pouco de hummus em Nazaré, onde o tal Jesus teria vivido sua infância. Ao contrário de Acó, as coisas aqui parecem que  mudaram bastante, e não tem mais qualquer semelhança com os cartões de natal. De Nazaré rumo a fronteira, com uma breve parada nas ruínas de Beit She´an, a maior das ruínas deixada pelo império romano em território israelita. Depois disso, um táxi até a remota fronteira e… burocracia.

Lamentavelmente faltará tempo para o Mar da Galiléia, mas tudo por uma boa razão, passar mais tempo na Jordânia.


Curiosidades

– A semana começa no domingo e termina na quinta. Sexta e sábado é o final de semana. O horário comercial vai das 9 as 7, e tem um intervalo das 2 as 4, quando lojas se encontram fechadas. Em vizinhanças árabes, o Shabbat (sábado) é ignorado e o comércio funciona, mas geralmente é fechado na sexta, que é o dia de descanso para os árabes. Confuso? Em lugares de maioria cristã, o domingo é o dia do descanso.

– Os idiomas oficiais são o Hebreu e o Árabe. Mas inglês é bem falado pela maioria dos israelitas.

– Em Tel-Aviv é muito raro ver um executivo vestindo terno e gravata. Enquanto no ocidente, escritórios abordam um caráter mais informal na sexta, em Tel-Aviv isso vale para toda a semana.

– O simples visto de Israel no passaporte fecha as portas para certos países. O visto significa que o portador do passaporte está banido da Síria, Líbano, Irã, Arábia Saudita, Líbia e Iêmen. E pode ter problemas  no Bahrain, Catar, Emirados Árabes e Oman, mas estes são mais flexíveis. Muitas pessoas pedem o visto israelita em um pedaço de papel, mas os oficiais de imigração dos primeiros países citados podem ser meticulosos, e se você tem um carimbo de entrada na Jordânia ou Egito, recebido na fronteira com Israel, sua visita está cancelada.

– As fronteiras de Israel com Líbano e Síria estão fechadas. Não há como cruzar para esses países, e há riscos de minas terrestres no caminho, de qualquer forma.

– Uma das maneiras mais baratas de viajar até Israel é a partir de Frankfurt e, principalmente, Londres. Pela easyjet consegue-se vôos por menos de £150 (retorno) se comprado com antecedência e fora de qualquer época de férias ou feriado.