Archive for março \29\UTC 2010

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Jordânia: Jerash e o Norte

março 29, 2010

A área ao norte de Amã, e fronteira com Israel e Síria, é a mais populosa do país e, ao visitar, não é difícil entender a razão. Por entre as colinas verdes repletas de oliveiras, correm os principais rios do país (afluentes do Jordão) e percorrendo as estradas não é preciso muita imaginação para associar essa área com outra qualquer do Mediterrâneo.

No segundo dia em Amã resolvi embarcar em um tour de um dia pelo norte do país, o destino eram as ruínas romanas de Umm Qais (Gadara) e Jerash (Gerasa), além do castelo de Ajlun e uma breve passagem por Irbid. Para tal contratei os serviços de um taxista, o beduíno radicado em Amã, Allen – para o qual reservei uma pequena parte desse relato ao final. Juntaram-se a mim uma professora alemã, uma escocesa radicada no Azerbaijão e uma californiana que andou viajando o mundo nos últimos 15 meses.

A primeira parada foi em Irbid, para uma volta pela cidade e o café da manhã. Irbid é uma cidade universitária, e uma das mais excitantes da região. Há vários cafés e bons restaurantes pela cidade, além de alguns bons museus, mas falta um pouco de charme e a cidade é um tanto ordinária. Entretanto Irbid é uma boa base para explorar melhor a região, já que é bem conectada a todos os outros pontos de interesse, além da proximidade com a fronteira de Israel.

Mais ao norte estão as ruínas da antiga Gadara, hoje em dia conhecida como Umm Qais. As ruínas não são tão impressionantes quanto as de Jerash – o lugar é pouco visitado por turistas mas bem frequentado pela população local. As ruínas são interessantes pois são uma mistura de uma antiga cidade romana com uma relativamente intacta vila da era otomana. Daqui também se tem uma bela visão da região do Golan na Síria e do Mar da Galiléia em Israel. Foi aqui que começou uma história de celebridade na Jordânia, com locais me pedindo para tirar fotos com eles e alguns comentários dizendo algo como “você se parece com os caras dos filmes americanos”. Boa parte do tempo eu me vi rodeado de pessoas curiosas.

Fotos depois, foi a hora de conhecer Ajlun (ou Ajloun). O castelo (Qala´atar-Rabad) é um exemplo em excelentes condições de arquitetura militar islâmica. O forte foi construído no topo do Monte Auf (1250 metros de altura), e data de 1184. Era um ponto estratégico na época pois comandava todo o vale ao redor, e foi extremamente importante na resistência contra as Cruzadas. A visão do topo é fantástica.

Finalmente era hora de ir até Jerash. 2.000 anos de história preservados de maneira surpreendente, a cidade em seus tempos de glória teve entre 15.000 e 20.000 habitantes. Ao adentrar as ruínas, tudo impressiona. Do portão central que é enorme, e originalmente tinha o dobro da altura, passando pelo círculo oval – praticamente intacto, até o anfiteatro que originalmente tinha a capacidade para 5.000 pessoas (e ainda hoje tem capacidade para 3.000), a cidade conseguiu sobreviver ao tempo. Há mais de 50 colunas de pé, algumas são imensas, e todas cheias de ornamentos. Pode-se perder horas andando pelo local, pois as ruínas se estendem por uma grande área e o fato de que está muito bem preservada torna a exploração do local interessante o tempo todo.

O tour levou o dia todo, e partiu bem cedo da capital. Ao todo gastamos 70 dinars, o que é relativamente pouco, considerando que tínhamos o motorista e um taxi a nossa disposição o tempo todo. Originalmente eu pensei em fazer isso contando com transporte público, mas dada a “flexibilidade” com que este opera, eu recomendo o motorista particular.


Sabedoria de Allen

– Casamento: “Homens do ocidente só podem ter uma esposa!? Aqui podemos ter até quatro. Mas eu acho isso estúpido. Esposa é trabalho e problema. Eu quero ½ esposa.”

– Deserto: “Eu não gosto do norte, é muito verde, e tudo dentro da lei. No deserto tem lei, mas nós passamos por cima, por baixo, pelo meio.”

– Amã: “É uma cidade boa, mas tem muito palestino, iraquiano, árabe. Tem muita gente as vezes.”

– Allen se dizia um exímio motorista. As estradas na Jordânia não são lá muito boas e geralmente tem-se uma faixa para cada direção e em alguns trechos conta-se com acostamento. Apesar disso, ele frequentemente acelerava seu taxi a até 160km/h, enquanto fumava um cigarro ou falava ao celular.

– Música: “Eu gosto de música de todo tipo. Mas as músicas do ocidente são muito parecidas. Eu acho música mexicana e escocesa, por exemplo, tudo igual. Mas tenho algo bom aqui… (Westlife).”

– Família: “Meu pai é agente secreto da Jordânia. Eu não posso dizer o que ele faz porque é meio que secreto.  Trabalha com a CIA e é bem famoso aqui, com o rei, você sabe…”

– Problemas com a lei: “O policial me parou, eu disse ´Ok, no problem´, ele me pediu dinheiro, eu disse ´Ok, no problem´. Depois ele quis apreender minha carteira de motorista, eu disse ´Ok, no problem´, mas no fim tudo deu certo. Aqui para tudo se dá um jeito.”

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Jordânia: Amã

março 28, 2010

A Jordânia é um país simples e barato para se viajar. Também não exige um planejamento muito grande já que o visto é emitido na chegada e há caixas ATM em toda esquina. E para um país tão pequeno a Jordânia tem distintas variações climáticas, das colinas verdes ao norte ao deserto de Wadi Rum ao sul, e o melhor é que é possível ver a maior parte do país em pouco tempo – mas é bom estar preparado para ônibus públicos que só partem quando estão com todos os assentos ocupados e coisas do tipo.

Depois de passar horas na fronteira com Israel, resolvi mudar meus planos. Conheci dois outros viajantes e juntos fomos diretos para Amã, capital do país, ao invés de ir rumo norte como havia planejado. Amã é uma moderna cidade árabe e não exatamente um centro cultural no Oriente Médio; nunca chegou aos pés de Damascus ou Cairo e geralmente quem chega de lá costuma ficar desapontado com a capital da Jordânia.

A identidade da cidade mudou muito durante os anos, tanto com a chegada de milhares de refugiados palestinos quanto com os refugiados iraquianos – a maioria acadêmicos, aos quais atribue-se a melhora na vida cultural da cidade e, junto da nova geração local, ter transformado Amã em uma cidade mais tolerante e com um pé no futuro.

Em muitos aspectos Amã se assemelha a Dubai, quando se vai a oeste da cidade é quase como andar por uma cidade do ocidente, embora a leste e centro da cidade é que se tem a real impressão de se estar em uma cidade árabe. O primeiro ponto de maior interesse é certamente a Citadela, em meio as ruínas romanas têm-se uma bela visão da cidade, e o museu arqueológico vale uma visita. De lá vale também uma caminhada até o teatro romano e o museu adjacente. Em essência esses são os pontos de maior interesse, o resto do dia pode ser gasto nos mercados locais (souqs). É quase lamentável que uma cidade com tanta história tenha hoje pouca evidência física de seu grande passado, a velha Philadelphia, como era conhecida antes praticamente não deixou nada para ser lembrada.

Curiosidades

– Amã é uma cidade que cresceu sobre várias colinas, e certamente não é uma cidade para se conhecer caminhando entre um lugar e outro. O transporte público é inexistente, porém taxis são muito baratos, só é preciso ter certeza que o taxista não esteja te explorando – é essencial pedir para ele ativar o taxímetro.

– Atravessar a rua é o primeiro desafio de quem chega em Amã, especialmente no centro da cidade. O segredo é se arriscar um pouco e fazer uma coisa por vez. Por exemplo, ao cruzar uma via de 3 corredores, primeiro faça um gesto para o carro diminuir e cruze uma via, a partir dali cruze a próxima e finalmente a última. Se quiser cruzar todas de uma vez, vai ter que esperar uma eternidade. E se um carro “passar raspando”, não se preocupe, é normal e bem calculado.

– O maior mastro do mundo se encontra aqui. Quase de qualquer ponto da cidade é possível avistar a bandeira da Jordânia no alto dos 127 metros do tal mastro.

– A cidade é dividida de uma maneira muito peculiar, onde a maioria das ruas é de uma mão só, e praças são conhecidos como círculos (e esse é um dos maiores pontos de referência: círculo 1, 2, 3…). Além disso há escadas, alamedas e colinas, e frequentemente uma rua tem mais de um nome.

– Por onde quer que se vá há sinais em inglês, em especial na capital. Mas o irônico é que a maioria não fala inglês, ou fala, mas muito mal e entende poucas palavras, raramente sentenças.

– Um bom lugar para se passar a noite e gastar pouco é o Farah Hotel, no meio do centro da cidade. É um dos poucos lugares na cidade onde se pode encontrar outros mochileiros e uma das grandes vantagens são os passeios que o hotel organiza, que também custam pouco e ajudam a fazer mais em menos tempo.

– Por fim, o povo é extremamente hospitaleiro. Onde quer que se vá, as pessoas perguntam sua origem para em seguida dizer “Bem vindo a Jordânia”, e nem estão tentando vender nada.

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Impressões finais de Israel

março 27, 2010

A viagem a Israel/Palestina foi uma idéia que ocorreu em algum dia no verão de 2006, mas até então não era mais do que uma vaga idéia e o fato de que Israel bombardeava o Líbano não alimentava muito a idéia de vir tão cedo – eu soube que Haifa foi alvo de alguns foguetes e teve até a explosão de um ônibus perto de onde me hospedei, por exemplo. Mas enfim, ao fim do ano passado, comecei a estudar mais a respeito dos conflitos no Oriente Médio, em particular Israel e a ocupação dos territórios palestinos e decidi que era um bom momento de vir. Minha tour por Israel/Palestina estava destinada a ter um caráter político e no que se refere a religião foi apenas mera curiosidade.

Durante cerca de 10 dias por Israel eu pude conhecer incríveis pessoas, algumas me hospedaram, outras me acompanharam nas baladas, e com a maioria eu pude compartilhar idéias e pontos de vista, inclusive sobre a delicada situação do país.

Em Tel-Aviv, minha primeira anfitriã Sivan, me introduziu ao estilo de vida local. Os Tel-Avivans, como são chamados, vivem em uma espécie de bolha onde o conflito parece algo distante e as pessoas não fazem muito além de curtirem a noite e a vida, quase como se estivessem na costa da Espanha ou da França. Não é que, aparentemente, não se importem, apenas levam suas vidas da forma que querem e ignoram o conflito a maior parte do tempo pelo simples fato de que este não afeta a cidade diretamente. Foi em Tel-Aviv que em uma das noites conheci um grupo de israelis, entre eles Yael, com quem me encontraria mais tarde em Jerusalém e bebemos por uma longa noite onde poucos ficaram de pé no final.

Depois foi a hora de Jerusalém e então eu pude conhecer o centro de todas as tensões entre judeus e árabes. O leste de Jerusalém tem uma população de maioria árabe bem como a cidade velha, em outras áreas da cidade vivem as maiores comunidas de judeus ortodoxos do país, ou seja, os mais intolerantes. É quase possível sentir a tensão no ar. Em Jerusalém fui hospedado por uma israeli de origem russa, chamada Keren, uma judia moderada mas que mantém certas tradições como seguir o Shabbat – o que criou situações estranhas como luzes acesas o dia todo, ou mesmo ela me pedindo para conectar determinado aparelho ou acender uma luz, ou mesmo comprar alguma bobagem no mercado. Keren estava extremamente ocupada na ocasião, com trabalho, mesmo assim foi legal ter ido ao parque tomar umas cervejas e ela me indicou os melhores lugares da cidade.

Foi em Jerusalém que conheci Yakov e Sara, dois israelis para lá de malucos – no bom sentido – e juntos bebemos quase todas as noites que estive por lá. Ambos trabalhavam no pub Stardust e, por conta de nossa boa interação, pude beber bastante sem gastar tanto – além de ter sido apresentado a vários amigos de ambos e ter tido boas conversas regadas a cervejas, entre outras coisas. Na última noite reencontrei Yael, e andamos pela cidade tarde da noite, de pub em pub, mas passando por áreas históricas, foi uma noite que marcou bem o fim de minha estadia na capital e deixará boas memórias.

Foi também em Jerusalém que conheci Abu, o meu guia pela Palestina. Abu é um palestino “de sorte”, se tal expressão pudesse ser usada. E para se ter idéia do que é algo como “ter sorte” sendo palestino, Abu perdeu o pai quando tinha 1 ano, foi preso e torturado quando tinha 14, conseguiu se formar em jornalismo aos 30, com ajuda de uma ONG e hoje trabalha como guia turístico pela Palestina. Abu não é um radical, embora tenha assumido que já fora um, e se mostra flexível em suas idéias, mas enfático ao dizer que a atual situação não pode continuar e que os poderes do oeste não dão qualquer esperança aos palestinos pela falta de ação e excesso de palavras. Foi ao lado desta pessoa que vi coisas e ouvi histórias que me deixaram perturbado, que me fizeram chorar e compreender o quão desesperadora é a situação. Foi também nesse dia que um palestino me disse “a minha única esperança são pessoas como você” e essas palavras certamente me marcarão para o resto da vida.

Transtornado com a experiência na Palestina fui para o norte, onde Noam, um israelita nascido no deserto do Negev e oficial da marinha me hospedou. Achei que a situação era um tanto irônica e até inapropriada, pois lá estava eu na casa de Noam, a qual ele divida com outros dois companheiros do exército israelita, após eu ter visitado a Palestina. Nesses dias não estava com a cabeça boa para sair e beber, então peguei leve, porém aos poucos fui conhecendo os caras da casa, dois deles nascidos em assentamentos judeus na Cisjordânia e pude perceber que todos eram moderados em suas opiniões e concordavam que a situação era insustentável e que o governo de seu país comete um terrível erro ao oprimir o povo árabe na região. Tivemos essa conversa delicada na última noite e me senti bem de ser honesto com todos e ao final me agradeceram pela opinião. A conversa com os três adicionou novas perspectivas, que somadas as que adquiri visitando a Palestina, me fará pensar sobre muitas coisas no futuro.

Bom, finalmente deixando o país, tento temporariamente colocar de lado essa parte triste e aproveitar o que vem pela frente. Foi uma jornada intensa, repleta de pessoas fantásticas e interessantes que tornaram minha experiência pelo país algo único. Israel é uma parte do ocidente no Oriente Médio e somente ao norte, é que se percebe traços do Oriente, e é em Jerusalém onde se encontra um caráter único da região. A significância religiosa somada a reação um tanto exagerada dos seguidores – em especial dos cristãos – é quase desconfortável mas por vezes engraçada ou curiosa. Enfim, foi uma experiência em minha vida que certamente me marcou muito de diversas maneiras e estou certo de que, um dia, volto aqui e possivelmente esse dia não está tão distante assim.

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Israel: Haifa, Akko e Beit She’an

março 25, 2010

Depois de dias intensos em Jerusalém e Palestina, já era hora de seguir rumo ao norte próximo a fronteira com o Líbano. Aqui meus planos começaram a mostrar as primeiras falhas, por duas razões básicas sendo 1) o fato de que eu tive uma pequena despedida em Jerusalém na última noite e bebi muito mais do que deveria, logo não consegui acordar cedo e 2) o norte de Israel não é tão bem servido por meios públicos de transporte e tornou-se inviável ir a certos lugares considerando o pouco tempo que eu tinha em mãos.

Mas finalmente, coloquei meus pés em Haifa, cidade de 270 mil habitantes, com população mista de árabes e judeus, um bom exemplo de coexistência pacífica na região. Uma surpresa para muitos é que a maioria dos árabes da região são cristãos, enquanto os judeus tem origem na Rússia. A cidade é o principal porto do país e foi construída nas encostas do Monte Carmelo, o que em termos práticos significa que o viajante vai ter que usar bastante transporte público para se movimentar pelas ruas sinuosas que em zigue-zague sobem pelo Monte Carmelo. Uma das áreas mais bonitas da cidade é conhecida como German Colony e abriga alguns dos melhores bares e restaurantes, e de lá a visão dos Jardins e santuário Baha´i é impressionante – alias, sendo este, o cartão postal mais conhecido da cidade.

A partir de Haifa, Akko fica a apenas 30 minutos de trem ao norte. Akko é uma das cidades medievais melhor conservadas do mundo, e não deveria ser o primeiro destino em Israel pois vai fazer com que as ruínas encontradas em outros cantos do país pareçam um tanto chatas. Essa é a Acre dos Cruzados e a capital do Reino da Palestina, onde recebeu carregamentos de Amalfi, Genova, Pisa e Veneza, e entre ilustres convidados estiveram Marco Polo e Napoleão. É impossível não amar a pequena cidade ao andar por suas alamedas estreitas e centenárias estruturas que continuam sendo utilizadas tanto como moradia de muitos quanto para o comércio. Uma visita a cidade não está completa sem saborear um sanduíche no “Hummus Said” que, de acordo com a população do norte de Israel, é o melhor do país.

No caminho para a fronteira foi a hora de parar em Beit She’an, pequena vila no extremo leste de Israel. A atração principal é um dos maiores sítios arqueológicos do país, que inclui um anfiteatro romano muito bem preservado. Acredita-se que a cidade era muito imjportante durante o domínio do Império Romano e as ruínas da antiga cidade, apesar de não refletir nem 1/3 do que historiadores acreditam que fosse, são impressionantes.

Dicas

– Em Haifa, fique muito atento a partida dos ônibus entre cidades. Há três centrais de ônibus e não há um padrão muito claro entre elas. Eu parei na estação errada e tive que ficar mais 40 minutos dentro de um ônibus local para chegar no lugar certo para, então, ir para onde eu queria.

– A estação de trem/ônibus de Akko fica há 2 kms da cidadela, e embora exista um ônibus local que faça a conexão, eu recomendo muito uma caminhada pela orla até a cidade velha. A vida é devagar em Akko.

– Se decidir cruzar fronteira com a Jordânia pelo Rio Jordão, a leste de Beit She’an, prepare-se para a dor de cabeça. Primeiro que não há transporte público até lá, então é preciso um taxi. Ao chegar na fronteira leva-se tempo para os oficiais israelitas checarem os documentos, depois é preciso pegar um ônibus por apenas 500 metros que, basicamente, cruza uma ponte. Daí é hora de encarar a imigração da Jordânia que, alias, é a parte mais rápida. Parece simples não? O processo todo levou 5 horas!

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Cisjordânia: Hebron

março 24, 2010

A maior parte do que deveria ser o estado Palestino está sob ocupação de Israel desde que o controle sobre a área foi tomado da Jordânia na guerra de 1967. Mas as cidades e vilas da região são distintamente palestinas e oferecem memórias inesquecíveis a quem ousar se aventurar na região.

Muito se ouve a respeito do que acontece aqui, e embora hoje em dia o acesso a informação é maior, o cidadão comum no oeste nunca chega a saber o que de fato acontece no dia-a-dia do palestino na Cisjordânia. Mesmo para o turista é complicado visitar a área, ainda que em tempos de relativa “paz” e com um passaporte estrangeiro. Há vários “checkpoints” durante o caminho e, muitas vezes, pode se levar horas para passar por eles, e ainda que o viajante sinta-se frustrado por esperar, ao prestar atenção no tipo de tratamento dispensado ao palestino, o estrangeiro sente-se um privilegiado.

Hebron fica ao sul de Belém e é o centro comercial da Palestina. Por entre os mercados da cidade e ruas comerciais a atmosfera é vibrante e o carisma dos vendedores incomparável. Alguns são tão flexíveis com o horário de atendimento que abrem suas lojas para que o cliente possa comprar, ou cozinham determinado prato de sua preferência, uma vez que disponham dos meios, só para atender a vontade do consumidor. Entre as atrações históricas e turísticas da cidade estão os túmulos de Abraão, Isaac e Jacó, além da mesquita de Ibrahimi.

Entretanto,  é ao visitar essa área que nota-se os problemas da cidade. Há pequenos enclaves de assentamentos judeus no meio da cidade e essas áreas são acessíveis somente para os judeus. Os tipos de situações que se vê são absurdas. Uma boa maneira de visitar Hebron é as segundas com a agência “Alternative Tours”. O guia é um palestino nascido em Jerusalém e o passeio tem caráter político também.


O horror

Acredito ser necessário dispensar muitas palavras a isso, porém vou tentar ser breve. Minha experiência na Cisjordânia foi horrível, do ponto de vista humanitário. As situações que presenciei numa visita ordinária a cidade de Hebron foram perturbadoras. O que o governo israelense está fazendo é claramente uma limpeza étnica e, sem qualquer exagero, pode ser comparado ao que nazistas fizeram com judeus. Sob o pretexto de “segurança” Israel tem construído uma muralha da maneira que lhe convém, e bem longe do que seriam as fronteiras estabelecidas entre Palestina e Israel. As muralhas transformam as cidades palestina em guetos, com apenas uma entrada/saída, fortemente controlada.

O abuso e humilhação diário da população é algo que ajuda a explicar o comportamento violento de muitos deles, e a posterior acusação de terrorismo. A falta de perspectiva de jovens palestinos certamente faz com que eles se rendam a formas mais violentas de protesto, já que com tantas décadas de ocupação nada realmente mudou. O exército frequentemente prende crianças e, obviamente, adultos sem qualquer acusação – apenas, novamente, por medida de segurança. A violência que a população sofre por conta dos colonos judeus na área é difícil de se colocar em palavras e algo absolutamente chocante.

Eu poderia citar diversos exemplos, mas um que ilustra bem foi o caso do professor judeu Baruch Goldstein que durante o Ramadan em 1994 invadiu a principal mesquita da cidade e disparou contra os palestinos enquanto estes rezavam – e a mesquita sempre foi “protegida” pelo exército de Israel, o que levanta perguntas sobre como o sujeito adentrou com um fuzil. Dezenas morreram pelas mãos deste sujeito e outros tantos mais quando o exército disparou contra a população para tentar conter a agitação. O criminoso foi morto ao tentar sair da mesquita e somente ano passado as investigações para identificar o palestino que o matou foi finalizado (inconclusivo). Próximo a um dos assentamentos na região há um memorial a este professor (Baruch Goldstein) e ele é celebrado como um herói pelos colonos locais.

Visitar a Cisjordânia abriu uma ferida em mim, me deixou completamente fragilizado e ainda custo a conter minhas lágrimas ao lembrar das coisas que vi e das histórias que ouvi.

Cisjordânia

Alternative Tours

No nível do solo um mercado palestino, acima apartamentos de colonos judeus. Nota-se os objetos jogados pelos colonos, entre eles cadeiras, tijolos e garrafas de bebida.

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O exército patrulhando o mercado palestino. Frequentemente os vendedores sofrem abusos e humilhações.

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Palestino refletindo na Mesquita de Ibrahimi, local do massacre de 1994.

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Israel: Mar Morto, Massada e Ein Gedi

março 23, 2010

Boiar no mar morto com os pés para o alto lendo um jornal é o típico clichê de uma viagem ao Oriente Médio/Israel. Mas diferente de certas bobagens que se tornam clichês essa é uma experiência extremamente válida e uma das coisas mais legais de se fazer quando viajando por Israel ou Jordânia e algo que não pode ser feito em nenhum outro lugar do mundo.

O Mar Morto localiza-se numa inóspita região e está parcialmente dentro da área da Cisjordânia. É o ponto mais baixo do planeta, a 400 metros abaixo do nível do mar e se extendendo por aproximadamente 65km por 18km. Uma das maneiras mais baratas, porém não muito relaxante, de ir até lá é pagando uma das dezenas de operadoras de turismo locais que oferecem o pacote. Os passeios costumam sair de Jerusalém por volta das 3.30 da manhã, e levam o turista inicialmente até Masada a tempo de ver o nascer do sol, depois até Ein Gedi para nadar no Mar Morto, finalmente uma breve parada no oasis de Ein Gedi e por fim outra parada em Qumran, o lugar onde foram encontrados os manuscritos do Mar Morto. Por volta das 3 da tarde já se está de volta a Jerusalém.

Uma das mais impressionantes atrações envolvendo esse passeio é certamente Massada. É um montanha solitária no deserto, e no topo uma espécie de platô onde se encontram as ruínas de um antigo forte, símbolo da resistência dos judeus a invasão romana. Ver o nascer do sol por trás das montanhas é um momento impressionante, sem contar a escalada até o topo – que não é das mais fáceis. É definitivamente uma experiência a ser vivida.

Por fim a reserva natural de Ein Gedi é perfeita para aventureiros amadores e vale para quem nunca teve a chance de visitar um oasis. Uma série de cachoeiras, cercadas de muito verde encravada no meio do deserto. A maioria das trilhas são simples e fáceis, mas existem duas ou três que exigem um pouco mais e não são recomendadas no meio do dia. As trilhas que levam até o topo oferecem uma grande visão do vale e do Mar Morto.

Dicas

– Quando se está a mais de 400 metros abaixo do nível do mar e no meio de um deserto não se pode esperar uma experiência ordinária qualquer. Embora a temperatura seja alta e o sol brilha quase 300 dias no ano, a pressão atmosférica filtra bem os raios ultravioletas e é quase impossível receber alguma queimadura severa por exposição prolongada ao sol. Entretanto o protetor solar continua recomendado.

– A desidratação é o maior perigo quando se visita o Mar Morto. É quase essencial ter um chapéu e óculos escuros e beber muita água constantemente. Recomenda-se um litro de água a cada hora.

– Boiar no Mar Morto é uma experiência única, mas devido ao alto nível de sal nas águas, recomenda-se o banho por apenas 25 minutos. Embora essa recomendação é quase desnecessária, pois após uns 5 minutos no mar já é possível sentir um certo incômodo em algumas partes do corpo. Após o banho siga direto para as duchas.

– Finalmente recomenda-se tomar cuidado com seus pertences em Ein Gedi, relatos de furtos na área são quase comum. Não se espante também ao ver banhistas nus, particularmente homens.

– Qumran é razoavelmente interessante, mas é mais uma parada para vender produtos milagrosos feitos a base de componentes únicos da região. Se o tempo estiver curto, opte por ir até Jericó ao invés de Qumran.


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Israel: Jerusalém

março 21, 2010

Sempre ouvi coisas distintas a respeito de Jerusalém e, anteontem, ao descer do ônibus concordei com todas elas – ou com todas as que pude lembrar. Há algo no ar da cidade, uma atmosfera distinta, uma sensação peculiar amplificada pelos gritantes contrastes que são jogados na sua cara a cada esquina, Jerusalém brinca com todos os sentidos, o tempo todo, e de maneiras que não sou capaz de reproduzir com palavras. Nem sempre de forma agradável, mas sempre de maneira inusitada. Jerusalém é uma entidade e, de fato, minha primeira cidade no Oriente Médio.

Por todos os cantos, seja dentro das muralhas da cidade velha, ou nos subúrbios arábes ao leste, a cidade desafia o tempo e as constantes guerras que sofreu e mantém sua arquitetura em boa forma e em grande estado de conservação. Andar pela cidade velha é certamente uma das experiências mais intensas que uma pessoa pode ter em vida – a cidade é dividida em blocos (quarters), sendo eles cristão, muçulmano, armênio e judeu. Não há uma divisão clara entre eles mas não precisa ter um olhar atento para perceber quando se cruzou a linha de um para outro, são 4 lugares completamente diferentes dentro de um espaço relativamente pequeno. Não são diferentes só no aspecto arquitetônico e de organização, mas também na forma como as pessoas se comportam e se vestem.

A fé, evidentemente, tem seu ápice no coração da cidade. As demonstrações de fiéis aqui e ali, nas mais distintas formas, são o testamento vivo da devoção e, porque não dizer, fanatismo de muitos. É difícil descrever o número de situações que passei em apenas um dia andando pelas estreitas alamedas da cidade e visitando lugares como o Muro das Lamentações, Via Dolorosa, entre outros. Não consegui esboçar reação além do espanto e, ocasionalmente, o desdém seguido de um suspiro respeitoso.

Mesmo sendo ateu me senti tocado e atingido pela cidade e pela devoção de tanta gente. Avistar suas muralhas pela primeira vez é algo indescritível, assim como andar pela cidadela ou adentrar as diversas igrejas, sinagogas e mesquitas. Jerusalém é algo vivo e intenso.

Curiosidades

– A síndrome de Jerusalém: reconhecida como uma condição médica que requer tratamento, a síndrome ocorre quando visitantes se sentem arrebatados pela significância histórica da Cidade Sagrada e chegam a conclusão de que eles são figuras bíblicas e que o fim está próximo. A maioria já teve problemas de comportamento anteriormente, segundo dizem, mas muitos eram considerados “normais” até então. Ocasionalmente é possível ver algum deles perambulando pela Ben Yehuda St.

– Shabbat: o sábado é o dia do descanso, enquanto em Tel-Aviv isso significa que é hora de beber e dançar, em Jerusalém TUDO para. Evidentemente que sempre há pubs abertos aqui e ali, mas de forma geral a cidade dorme. Em lugares onde normalmente se leva tempo para cruzar por conta do trânsito caótico de carros e pessoas, anda-se sozinho com um silêncio perturbador e ausência de pessoas ou carros.

– Monte das Oliveiras: reza a lenda que é o lugar onde o messias voltará e deus irá redimir os mortos. Em termos práticos é um bom lugar para se ter a melhor visão de Jerusalém, e durante a manhã é quando se tem a melhor condição de luz. O fato de que o lugar é mencionado como o palco de significante evento faz qualquer um entender porque os cemitérios na encosta são tão populares. Aparentemente um pedaço de terra aqui, muito popular entre os judeus (mais de 150.000 já foram enterrados ali), pode sair bem caro.

Dicas

– Durante o Shabbat a melhor opção para compras está nas áreas árabes da cidade. O centro e demais áreas ficam completamente vazios e lojas fechadas. Vale uma visita ao Muro das Lamentações pela manhã, mas lembre-se que uma vez que adentrar o patio é proibido tirar fotos. No fim de tarde há uma refeição especial próximo ao Muro, a comida é de graça, mas é preciso ouvir algumas palavrinhas antes de cair de boca. Vale a pena, no entanto – a comida é boa.

– Vida noturna: Jerusalém não chega a cativar muito mas tem algumas opções. As melhores opções estão em Rivlin e Yoel Solomon St no centro da cidade. A cidade velha é mais seca que o deserto. Uma boa opção é o pub Stardust em Rivlin St, para fugir da massa de pós-adolescentes americanos que infesta a maioria dos pubs locais e ouvir um pouco de indie rock. A maioria dos pubs tem promoções entre 6 e 9.30/10 da noite, onde os drinks são todos vendidos pela metade do preço.

– Antes de beber talvez seja uma boa idéia comer um pouco, as melhores opções para o bolso estão em Jaffa Road (Yafo Rd). Dentre elas vale destacar o vegetariano Village Green e o descolado Coffee Bean. Em fato não há melhor indicação, eles estão um de frente ao outro em Jaffa Road e ao lado de Rivlin St (e do supracitado pub Stardust).

– Finalmente, a partir de Jerusalém é possível fazer um bom número de passeios, seja para o Mar Morto ou para cidades da Cisjordânia. Uma boa companhia é a Alternative Tours, para fugir um pouco do mar de turistas. A maioria dos passeios tem conotação política e visa conscientizar o visitante do problema que os palestinos enfrentam, entretanto há também passeios mais comuns.